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Surgir efeitos

Foto do escritor: almadevoar
almadevoar
24 de jul.
2 min de leitura

Entre o surgir e o surtir existe um intervalo — é nele que os efeitos da fala acontecem. Sigmund Freud, em “Recordar, repetir e elaborar” (1914), nos mostra que não basta lembrar: é preciso passar pelo tempo da repetição até que algo possa, de fato, ser elaborado. Mais tarde (1945), Jacques Lacan formaliza isso ao falar dos tempos lógicos: há um tempo para ver, um tempo para compreender e um tempo para concluir. Nada se transforma de imediato.


É nesse intervalo — entre um instante e outro — que um discurso pode se deslocar. Na análise, o tempo não é um detalhe: é condição. Ele introduz um limite, uma falta, e nos confronta com o impossível de controlar tudo. Aos poucos, deixamos a posição de querer dominar o tempo para nos reconhecermos como sujeitos atravessados por ele.


A vida insiste nisso: ela não oferece respostas prontas, mas produz perguntas.


Talvez seja por isso que a psicanálise ainda incomode, uma vez que estamos todos imersos no universo da tecnologia, que promete soluções e respostas imediatas, receitas do Dr. Google, diagnósticos, cartilhas de como-ser-tal-coisa ou de como-ter-dinheiro-e-sucesso. Fabricar a si próprio e sustentar as perguntas é um ato de resistência. Apostar na própria construção, em vez de buscar um saber pronto no outro, vai na contramão do que se espera.


Quando se abandona essa busca apressada, algo se perde: a potência de criar saídas próprias. Em vez disso, instala-se a crença de que existe alguém que sabe, alguém que tem a resposta certa. Essa é a armadilha.


Entre o surgir e o surtir, porém, há um campo fértil. É ali que o sintoma pode deixar de ser apenas repetição para ganhar outro destino. O que antes se apresentava como sofrimento pode, com o tempo, ser transformado.


Mas isso não acontece sem corpo, sem experiência. Antes de qualquer “solução”, é preciso atravessar o que aparece, o que surge nas palavras, e também no que não consegue ser dito.


Por isso a insistência de não nos esgotarmos nas apostas, nas buscas e nas tentativas. Não há uma única resposta capaz de dar conta de tudo, e é justamente por isso que seguimos: abrindo caminhos, tentando, criando, escrevendo, vivendo...

 
 
 

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